Você sabia que o Brasil é um dos países onde mais se pode aprender sobre parteria tradicional?

Se você quer se tornar uma parteira ou obstetriz, você deveria buscar a parteira mais perto de você.

 

A parteria tradicional é um saber milenar passado de forma geracional, de mães para filhas, tradicionalmente transmitido entre as mulheres de uma mesma comunidade. São articulados diversos saberes sobre plantas locais, fisiologia, anatomia e também emocionais para apoiar a gestante durante todo o processo da gravidez, no pós-parto e também o recém-nascido. São saberes desenvolvidos ao longo de muito tempo e operados de forma comunitária. Basta pensarmos que dentro de nossa história civilizatória, chegamos até aqui através das mãos dessas mulheres, pois até final do século XVIII era a principal forma que nascíamos, de parto natural, em casa e com parteiras. 

 

“Atualmente, o Ministério da Saúde define como parteira tradicional a profissional que presta assistência ao parto domiciliar baseada em práticas tradicionais e é reconhecida pela comunidade como parteira.” – Agência Brasil

 

No Brasil, estima-se que 20% dos partos são feitos por parteiras tradicionais. Pelas características continentais e falta de sistema público de saúde em muitos territórios, essa continua sendo a única opção de acompanhamento de uma gravidez para milhares de pessoas. Por isso até hoje a atividade ainda é extremamente comum e preservada em grande parte do nosso território. Em alguns países esse ofício foi se convertendo nas profissões de obstetrizes e enfermeiros e enfermeiras obstétricas ou até mesmo se tornaram alvo de perseguições, como ocorreu durante a ditadura chilena, onde a atividade quase desapareceu pelo medo da perseguição política. 

 

Existem excelentes cursos no Brasil e isso mostra que esses saberes possuem ampla circulação em nosso território. Porém, muitas vezes os conhecimentos tradicionais das parteiras são apropriados, descaracterizados das suas raízes e transformados em capacitações caras, inacessíveis a grande parte da nossa população. Por isso queremos lançar uma outra opção, menos óbvia para a ânsia capitalista por certificações que nos deem credibilidade e acessos numa sociedade tão competitiva e mercadológica. 

 

Se você deseja aprender verdadeiramente sobre esse assunto, por que não procurar pelas parteiras tradicionais que já desenvolvem esse trabalho perto de você? Talvez seja uma excelente forma de começar sua jornada, se conectando primeiro com essa rede imensa de mulheres que atuam como parteiras tradicionais e que precisam de apoio em seu ofício, e não só financeiro, já que muitas vezes atuam de forma autônoma, sem cobrar nada, somente pela tradição e função comunitária. Porém, se colocar à disposição delas para aprender e ajudar, dando continuidade a essa teia infinita que atravessa os séculos. 

 

Se hoje temos cursos superiores profissionalizantes, é indiscutível que devemos buscar sempre o aprimoramento. Porém, especialmente em localidades urbanas, onde a dinâmica capitalista de “pagar e receber” é mais vigente, perdemos a prática de nos colocarmos à disposição dessas mestras, e por isso, aos poucos esses saberes vêm se dissolvendo e perdendo força à medida que não são transmitidos através das gerações. 

 

Caminhamos lentamente em direção a escassez desse ofício, principalmente por falta de investimentos e isso reflete diretamente na economia, pois uma população saudável, com acesso à saúde primária, diminui as taxas de mortalidade, de mortalidade infantil, promove um país mais igualitário e fortalecido, entre outros fatores positivos. Segundo a ONU, o mundo sofre com a falta de 1/3 da quantidade de parteiras necessárias para amparar milhares de vidas e pelas projeções, as parteiras salvariam 4,3 milhões de pessoas por ano no mundo. 

 

 

Como podemos articular uma convivência equilibrada e respeitosa entre todos esses saberes? Como preservar o reconhecimento dessas tradições de modo que sua essência seja resguardada? E ao mesmo tempo, como se apropriar desse conhecimento, de modo que a profissão possa se profissionalizar ainda mais, sem desonrar o legado dessas mestras parteiras tradicionais?   

 

Celebramos os avanços da Medicina que possibilitam salvar vidas, mas não é sobre isso. Não se trata de uma disputa com o saber acadêmico, mas de estabelecer uma colaboração entre os saberes médicos tradicionais, populares, ancestrais e a Medicina moderna. É sobre resguardar a essência de um fenômeno incontrolável que médicos obstetras buscam a todo custo domar, agendar e vender. E pagamos preços altíssimos, uma vez que o Brasil tem a segunda maior taxa de cesárea do mundo:  

 

“No Brasil, aproximadamente 55% dos partos realizados no país são cesáreas. É a segunda maior taxa do mundo, atrás apenas da República Dominicana. Se considerarmos a realidade no sistema privado de saúde, a proporção pula para 86%. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a taxa ideal de cesarianas deve estar entre 10% a 15% dos partos.” – Agência Fiocruz, segundo a pesquisa “Nascer no Brasil”, divulgada em 2014 e atualizada em 2020.

 

Não se trata de romantizar esse ofício, e demonizar a cesariana. Sabemos que o avanço da Medicina e da tecnologia também evita complicações, como a morte materna e de recém-nascidos. Porém é urgente considerar que o sistema de saúde não alcança todas as pessoas e muitas vezes, mesmo dentro de hospitais elas não recebem o atendimento que deveriam. Através de diversos relatos que ouvimos, principalmente em rodas de mulheres, a violência e o racismo obstétricos são realidades cotidianas dentro do sistema de saúde, tanto públicos como privados. Porém, apesar dos avanços, essa temática ainda é pouco abordada e discutida, o que até mesmo dificulta a compreensão das muitas formas de violência obstétrica que existem, nos deixando ainda mais vulneráveis diante do poder médico. 

 

Diante disso, todo esse processo, de descredibilização do trabalho das parteiras tradicionais, é fortalecido pelos profissionais da Medicina, que constantemente menosprezam os saberes tradicionais e a importância dessas mulheres que salvam milhares de vidas todos os anos. Uma pesquisa da Lancet Global Health levantou dados importantes comprovando que as parteiras (nesse caso incluindo as obstetrizes, enfermeiras e enfermeiros obstetras) possuem um enorme impacto na melhoria da assistência à saúde e na prevenção de morte. Parteiras podem sanar cerca de 90% das necessidades básicas relacionadas não só a saúde das gestantes e seus recém-nascidos, como também relacionadas à saúde sexual, reprodutiva, infantil e na adolescência. Elas fortalecem a saúde e o bem-estar de milhares de mulheres, adolescentes e recém-nascidos e são responsáveis pela promoção de saúde em seus territórios. Muitas vezes com condições de trabalho insalubres, elas são capazes de oferecer um cuidado seguro e eficaz a pessoas que, de outra forma, não teriam isso a seu alcance. 

 

“Estudos recentes sugerem que o modelo medicalizado de nascimentos, em que há excesso de intervenções no parto, como o uso de medicamentos para indução ou aceleração do mesmo, amniotomia, anestesia, episiotomia e, principalmente, a cesariana desnecessária, resultou, dentre outras, no aumento da taxa de nascimentos prematuros.”

 

Segundo o deputado Camilo Capiberibe (PSB-AP), autor do PL 912/19, que prevê qualificação básica de parteira tradicional, pelo Ministério da Saúde, além de pagamento de salário mínimo, “estima-se que existam mais de 60 mil parteiras em atuação no Brasil, sendo 45 mil nas regiões Norte e Nordeste. No Estado da Bahia, conforme cálculo da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais, haveria entre 7 mil e 8 mil. No Pará, 6 mil, no Tocantins, em Mato Grosso e em Minas Gerais, mais de 5 mil. Elas são responsáveis pela realização de 450 mil partos todos os anos” – Agência Brasil, 2020. Porém, somente cerca de 3 mil delas estão cadastradas no Ministério da Saúde.

 

Para termos uma dimensão melhor, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas estima-se que em 2021, somente na América Latina e Caribe seriam 110.000 parteiras, ou seja, mais da metade estaria no Brasil. Portanto, em muitas regiões do país, especialmente nas zonas rurais, ribeirinhas e distantes de centros urbanos, comprova-se que a única opção que existe é o parto domiciliar, natural, assistido por parteiras tradicionais. 

 

É papel do governo garantir que mais políticas públicas como o Programa Estadual de Parteiras Tradicionais (funcionando desde 1993 em Pernambuco, considerado uma referência nacional no âmbito) e o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais (implementado em 2002 e descontinuado em 2010) aconteçam para que as parteiras possam atuar em colaboração com as instituições públicas, com condições melhores de trabalho, materiais cirúrgicos básicos para assistência (tesouras, etc) e em colaboração com os órgãos de saúde, produzindo dados e políticas que atinjam as mulheres mais pobres e vulneráveis. O processo de capacitação é fundamental para promover a interação entre o saber empírico das parteiras e o conhecimento técnico, na intenção de resgatar o que de melhor foi produzido nestes dois campos de saberes para assegurar uma gestação e parto seguros e humanizados, além de reconhecer, mapear e remunerar essas mulheres por seu trabalho comunitário de toda uma vida. 

 

Como seria se essas grandes mestras pudessem se instrumentalizar, ter mais infraestrutura e apoio para exercer e repassar seu ofício? Qual seria a realidade do parto no Brasil? 

 

 

Formar profissionais e promover o debate sobre saúde sexual e reprodutiva gera uma profunda transformação na sociedade. Conforme pesquisa divulgada em 2018, evidenciar essa temática – através de campanhas, formações, etc – reflete diretamente no aumento da renda familiar média, além de contribuir para o fortalecimento da economia local, global e igualdade de gêneros. É necessário investir tanto em mão de obra, como em educação, treinamento, na liderança e agenciamento das parteiras promovendo uma posição de igualdade em relação a outras atividades médicas e nesse sentido o engajamento da comunidade é fundamental para preservar e fortalecer esses saberes e essas agentes da saúde comunitária.

 

É muito necessário olhar de outra forma para o ofício das parteiras, sem a ótica do medo relacionado ao parto e sem o preconceito em relação à prática dessas mulheres guardiãs que provavelmente foram as primeiras a exercer a Medicina na história da humanidade. A gestação não é uma doença que necessita de tratamento. É um fenômeno natural da experiência humana e, na maioria das vezes, não apresenta riscos. 

 

São muitos os estudos que comprovam a importância do trabalho dessas mulheres e de todo o legado que nos trouxe até aqui. Por isso incentivamos muito que cada vez mais pessoas se dediquem a essa atividade, contribuindo na preservação da sua essência e ao mesmo tempo ajudando a fazer a transição desse ofício para os nossos tempos. É urgente que busquemos essas mulheres para dar continuidade a seus trabalhos. 

 

Texto: Liz Tibau

Imagens: Fotos do ensaio e exposição “Mães de Umbigo, parteiras da Amazônia” (Stephanie Pommez/Gamma)

 

Bibliografia:

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