Tradutora: Ligia Francilino
Edição e revisão: Liz Tibau

 

É possível imaginar e colocar em prática outros formatos possíveis que garantam a reprodução da vida, e que não estejam associados ao sistema que impõe à mulher as tarefas de cuidado que, envolvem criar e limpar/organizar?

 

Se o contexto define a prática, então a vida doméstica é formada pelo combo: criar e limpar. Se a prática não está subordinada às pessoas, então é o espaço o responsável por definir que, as tarefas domésticas são realizadas no âmbito “casa”. Justamente por isso, contribuem diretamente para a sensação de enclausuramento e opressão.

 

Poderíamos facilmente enumerar um conjunto de tarefas domésticas que se desenvolvem em qualquer casa diariamente. Porém, se tivéssemos que definir em que consiste o ato de criar, a lista seria infinita e menos óbvia, pois, esta é definida baixo critérios ideológicos, aprendizados anteriores, costumes e o possível e desejável para cada família.

 

De todas as formas e de modo inquestionável, somos nós, as mulheres, majoritariamente e em maior proporção de horas -mesmo em pleno século XXI- as encarregadas desse 2×1, que também podemos chamar de dupla jornada de trabalho. Porque enquanto cuidamos, colocamos a roupa na máquina e cozinhamos ao mesmo tempo em que ajudamos com os deveres da escola, dobramos a roupa e quando as crianças se sentam para assistir TV, aproveitamos para limpar o chão.

 

Ficou estabelecido que nós, mulheres, somos multitarefas e podemos focar em muitas coisas ao mesmo tempo. Sempre as mulheres, mesmo que a casa ou as crianças não sejam nossas ou que o trabalho seja remunerado.

 

Como é possível encarar essas múltiplas tarefas que nunca têm fim sem morrer de esgotamento?

 

Estudos comprovam que, ao registrar sistematicamente as tarefas da mulher/ mãe/cuidadora/encarregada do lar, a quantidade de afazeres não cabe em 24h (sugerindo que a pessoa seja quase um robô que não precise descansar), daí surge a necessidade de se planejar estrategicamente e render-se à multitarefa. (D’Atri, Andrea* (2004).

“Feminismo y marxismo. Más de 30 años de controversia”, en Lucha de Clases #4, y Hartmann, Heidi* (1980). “Un matrimonio mal avenido: hacia una unión más progresiva entre feminismo y marxismo”, en Zona Abierta #2.) *

 

Além disso, a noção de disponibilidade da pessoa responsável pelo cuidado, no caso de bebês e crianças menores, é base fundamental para a formação da subjetividade infantil. Por isso, habitar o mesmo espaço que um bebê de forma segura, atenta e tranquila não é o mesmo que cuidar de um bebê enquanto se realizam as tarefas domésticas. É impossível equiparar o cuidado de uma pessoa que está verdadeiramente presente, concentrada na observação, na atenção e no afeto, que de uma pessoa que precisa atender à muitas questões por vez. Logo, à medida que a infância termina, as tarefas mudam e se adaptam para outras formas necessárias de atenção.

 

A posição imposta pela maternidade e os afazeres domésticos executados simultaneamente, aqueles que tradicionalmente designamos “ser dona de casa” nos coloca em qual posição como sujeitas?

 

Algumas teóricas feministas¹ definiram qual o papel das mulheres na equação capitalista: não existe produção sem reprodução da mão de obra, mas tampouco sem a reprodução do que torna o cotidiano possível: as tarefas de cuidado.

 

Essas lutas têm diferentes terrenos de disputa, sem dúvidas, no seu campo material específico, ou seja, o doméstico, o íntimo, porém, esse debate pode ser até muito mais profundo dentro da esfera das políticas públicas.

 

Podemos até desmontar as tradições e imposições sociais, mas sobretudo, e de forma maciça, quais são as nossas reais possibilidades ao reivindicar o pleno exercício de nossa cidadania (Licenças familiares, renda básica universal, creches e escolas públicas, etc.)? Para além disso, resta repensar quais avaliações simbólicas podemos atribuir às tarefas de cuidado, ou seja, atribuir outro significado à habitual frase: “eu não trabalho, só cuido de casa”.

 

Sob qual sistema se estabeleceu a associação mulher + tarefas de cuidado (criar + limpar)? Que outros formatos podemos imaginar e colocar em prática para garantir a reprodução da vida?

 

Colocar na mesma categoria a higienização de um banheiro e o acompanhamento emocional das crianças, ou, ir à reunião escolar e pensar qual livro introduzir de acordo com o momento, seria limitar a experiência de criar². É um desrespeito com a infância. A criação é uma tarefa muito mais árdua, extenuante, duradoura e desafiadora. Ao mesmo tempo, criar pode se transformar numa tarefa prazerosa, que convoca o uso da criatividade, o afeto, a imaginação e muitas capacidades intelectuais. Em um mundo que não valoriza o cuidado, cuidar pode ser revolucionário.

 

Tanto a maternidade como os cuidados são experiências centrais da vida social: nós cuidamos e cuidam de nós e, muitas vezes, ambas as coisas ao mesmo tempo.

 

Atualmente, enquanto tentamos colocar as tarefas de cuidado no centro da vida política e econômica, dissociar limpeza e criação poderia parecer um excesso. Entretanto, se viermos a questionar todas essas questões, estamos diante de uma grande oportunidade para reconhecer e valorizar o significado de criar, entender todas as potencialidades que essa responsabilidade carrega e provoca.

 

Pensar no processo de criação como arte e não como uma atividade doméstica parece ser o ponto crucial.

 

Texto: Carolina Irschick

 


 

*Andrea D’Atri é psicóloga, docente, escritora e dirigente política argentina. O livro “Feminismo y marxismo. Más de 30 años de controvérsia” (Feminismo e Marxismo: Mais de 30 anos de Controvérsia, em tradução livre), sem edição traduzida e publicada no Brasil.

* Heidi Hartmann, é uma economista feminista que é fundadora e presidente do Institute for Women’s Policy Research (Instituto de Pesquisa de Políticas Femininas). O livro citado no texto, no original “The Unhappy Marriage of Marxism and Feminism” (O Infeliz Casamento entre entre Marxismo e Feminismo, em tradução livre) sem edição traduzida e publicada no Brasil.

 


 

¹ Nota da tradutora

 

² Gostaríamos de gerar algumas reflexões levando em consideração os contextos políticos, culturais e sociais do país de origem desse texto. Apesar de aspectos universais ao que tange o trabalho reprodutivo das mulheres, queremos chamar atenção para as características específicas da nossa realidade brasileira onde ainda é extremamente comum a terceirização do trabalho doméstico, onde o projeto colonial se estendeu por séculos absorvendo uma massa imensa de mulheres negras para desenvolver atividades relacionadas a essa dupla jornada de trabalho.  

É importante ressaltar que o texto foi escrito segundo a perspectiva de uma mulher chilena e, como existem diferenças entre o processo de colonização do Chile e do Brasil, consequentemente resultam em diferenças culturais que, quando observadas dentro do nosso contexto, podem soar “fora da realidade”. No Chile não existe a cultura de pagar pelos serviços de faxina, enquanto no Brasil, mesmo que privilégio das classes média e alta, é comum pagar para delegar os serviços domésticos. De todas as formas, não podemos deixar de observar que, aqui no Brasil, os trabalhos domésticos são majoritariamente realizados por mulheres negras que, além de trabalharem na casa de outras pessoas, precisam fazê-lo em suas próprias casas, resultando assim, na dupla jornada de serviços domésticos executados pelas mulheres negras e, exatamente o mesmo ocorre quando se trata da tarefa de cuidados. 

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